Segunda-feira, 26 Setembro 2022
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Entre a Beira e o Douro, a Lenda de Amor de Ardinga

ENTRE A BEIRA E O DOURO, A LENDA DE AMOR DE ARDINGA

Era uma vez!... Estas terras povoam-se de lendas mas foram os homens, numa gigantesca cadeia de gerações, que modelaram a história.

Semearam o pão, criaram gado, abriram caminhos que ligaram com pontes, fizeram casas para abrigar mulheres e filhos, umas ricas, outras pobres; adoraram sempre um Deus a quem ofereciam ex-votos em capelinhas construídas nas dobras de silenciosos montes.

 

 

 

 

CHAVÃES

Partimos de Tabuaço, do terreiro frente à Capela de Santa Bárbara, advogada contra as trovoadas que vêm da montanha; passamos ao lado do quartel dos Bombeiros Voluntários e começamos a subir a serra, em direcção a sul.
A estrada municipal nº 515, suficientemente larga e de bom piso, com o Miradouro da Fraga do Tostão à esquerda, corta o dorso de granito da Serra de Chavães, onde crescem giestas e pinheiral.
É uma fuga para a Beira, que deixa para trás o Douro e as suas colinas de vinhedos. Sobre a esquerda impressiona o gigantesco rochedo do Fradinho que sobe a pique como um Hércules que tivesse de amparar este estranho canto do céu que vamos conhecer.
Chavães anuncia-se em breve, ao km 5. A povoação encosta-se à montanha, abriga-se dos ventos do Norte e expõe-se à quentura do Nascente e do Sul.
Tem ares de paisagem bíblica. Gados pastam em lameiros. Passam mulheres montadas em burricos. Um homem de sachola ao ombro acompanha-as a pé. Outras mulheres lavam no tanque sombreado da Fonte da Nogueira onde há moinhos fora de uso.
Uma pedra almofadada romana inscrita num muro do Largo da Praça lembra povoamento antigo. O Castro de Longa, no Muro, sobre o sul, dominou por aqui.
Podemos ainda contemplar o Pelourinho, no Largo da Praça, datado de 1698, inúmeros nichos de Alminhas, o Cruzeiro dos Centenários e a Capela de Nossa Senhora dos Milagres, ao fundo do povo. A Igreja Matriz foi levantada na encosta fronteira que hoje se povoa de casario novo. Talhada em boa cantaria, apresenta uma curiosa arquitectura.
Seguimos viagem. Depressa se chega a terrenos altos e planos onde uma estradinha de terra batida, a aguardar merecida beneficiação, corta à esquerda (Km 7) para nos levar à Aldeia de Sendim.

 

 

SENDIM

São terras altas e planas, cujo horizonte é o céu. À volta há pinheiral queimado, magros campos para centeio, plantio de castanheiros novos. A terra é saibrosa, sem pedras.
Ao chegar mais ou menos ao km 11, um caminho muito mau de terra batida leva-nos à Capela de Santa Luzia. Volta-se ao mesmo caminho e em breve se desce rumo a Aldeia de Sendim.
Os horizontes alargam-se sobre Nascente e Sul, onde o curso do rio Távora se suspende na Albufeira do Vilar com águas represadas, a espelhar. A estrada ganha asfalto e, ao km 13, entra-se na Aldeia de Sendim, importante povoação do Concelho, que integra os vizinhos lugares de Sendim, no alto, o mais antigo, a Aldeia, que assenta em plano inferior, e o Paço, junto à EN nº 323.
Existem sepulturas antropomórficas alti-medievas em vários lugares: Monte dos Baganhos, Cabeço do Poio, etc. O Pelourinho eleva-se ainda no velho lugar de Sendim.
Os monumentos religiosos são vários. A imponente Igreja Matriz de Santa Maria, em Sendim, assenta sobre uma necrópole paleo-cristã que se revela ainda nas sepulturas visíveis no adro, em cujo ângulo Norte pode ver-se também um marco da Universidade de Coimbra, que assinalou o seu padroado sobre a igreja desde o séc. XVI.
No sítio do Calvário foi erguida, em 1679, uma capela dedicada a Santa Bárbara. Junto da Igreja encontra-se ainda uma capela particular, arruinada e, mais longe, no campo, a capela de Stº Ovidio. Ao descer vê-se sobre a direita um bonito Nicho de Nosso Senhor dos Aflitos.
Em breve estamos no sítio do Paço, onde duas importantes residências setecentistas afirmam o poder de fidalguias antigas. Abrem ali na boca da Rua Engº João Carlos Sobral Meireles.

 

 

GUEDIEIROS E CABRIZ

Quem quiser pode deslocar-se a Guedieiros, no caminho que vai para Riodades, atravessando o Távora. Tem a graça de todas as aldeias.
A Capela de S. Marcos ocupa, com alguns cruzeiros, um sítio idílico. Mas há também a forte presença de um solar e de residências de prestígio. E os mordomos de todas as festas da vizinhança conhecem os seus habilidosos armadores de andores.
A viagem segue pela EN 323 em direcção a Tabuaço, primeiro entre campos cultivados, depois entre mato e pinheiral. Com o rio Távora à direita, encontramos a pequena aldeia de Cabriz, onde o carro pode descer até ao adro da Capela de Santa Maria Madalena, construída em 1777. Atrás da capela há enigmáticos rochedos onde se abriram degraus de acesso a uma espécie de fonte lavrada onde a água brota, mais de inverno, de uma fenda da rocha. A gente do lugar chama-lhe "O Milagre".
Um caminho ladeado com boa calçada corta os termos da aldeia e passa junto de uma capelinha dedicada a Nª. Srª. da Boa Morte, mandada levantar em memória de Manuel Dias, da Quinta do Pereiro, pelos seus herdeiros, em 1760.
Mas o que há de mais significativo em Cabriz são os Três Castelos - três gigantescas massas rochosas rodeadas por um braço de rio e tão difíceis no acesso que a imaginação popular produziu facilmente uma lenda. Diz-se que os Cavaleiros Cristãos D. Rausendo e D. Tedon se recolhiam nestas fortalezas inacessíveis com seus homens, para descanso e treino durante as lutas com os Mouros.
Um guia local poderá conduzir o viajante ao sítio e levá-lo até ao cimo de um deles se for ágil e sabedor. Subir a um dos Castelos de Cabriz é uma tarefa arrojada mas gratificante.

 

 

PARADELA

Outra vez voltamos à EN 323, mas, quem tiver tempo, pode ir ainda a Paradela, cujo casario se alonga a meia encosta na Serra. Para Nascente e Sul a panorâmica é impressionante.
A Igreja de Paradela foi do padroado da Universidade de Coimbra e há ainda um marco num canto do adro que o atesta.
A Pedra do Cavalo é um outro curioso monumento da Natureza. Um bom guia indicará o caminho ao viajante.
Pelo mesmo caminho desce-se à EN 323 e percorridos quase dois quilómetros chega-se ao cruzamento da Granjinha.

 

 

GRANJINHA

Esta pequena povoação, que já se avistara vindo do alto, está aninhada à volta de uma capela dedicada a S. Pedro. Aqui, a população cultiva a terra e aproveita a baga de sabugueiro.
Nos termos da Granjinha, há para ver uma verdadeira jóia arquitectónica, o Ermitério de S. Pedro das Águias, ao qual se liga a deliciosa lenda de Ardinga ou Ardínia. A ermida, dita de S. Pedro-o-Velho, andou ligada ao Mosteiro cisterciense de S. Pedro.
Construída num apertado balcão talhado sobre o rio Távora, junto à Fraga Amarela, orientada na direcção do Poente, a fachada principal encosta-se, quase, à montanha. Os seus portais e fachadas carregam-se de uma poderosa e quase assustadora simbologia românica.
Subimos a EN 323 que segue sempre a meia encosta alta, entre a margem do Rio Távora, onde nasceram quintas e espécies vegetais que, apesar de misturadas com o pinhal da Beira, lembram o Douro.
A cerca de 3 Km da Granjinha aparecem, hoje plantados de vinha, os termos da antiga Cerca dos Frades do Convento de S. Pedro das Águias.
As edificações em ruína foram recentemente recuperadas para uma modernizada exploração.

 

 

TÁVORA

Continua-se a viagem até à aldeia de Távora, de povoamento antigo, mas celebrizada apenas com a trágica sorte dos Marqueses que lhe tomaram o nome e que foram sacrificados pelo Marquês de Pombal.
A Igreja Matriz de S. João Baptista, setecentista mas com torre do início do século passado é bastante modesta.
Sobranceiro ao povoado e de acesso difícil, fica o Castelo do Calfão, onde a velha ermida de Nª Sª dos Prazeres, hoje destruída, se tornou pólo de romaria anual e local de feira. De um terraço da estrada tornado miradouro, avista-se o vale fértil do rio Távora e apercebe-se, ao longe, na direcção do Norte, a vila de Tabuaço.
Logo à esquerda da estrada levanta-se, bem perto e quase a pique, a montanha apenas feita de granito que cai adiante, mais abrupta ainda, no sítio do Fradinho. A estrada corre até esse sítio ermo, trágico e assustador, que o engenheiro Tito de Noronha, chamado do Porto, veio abrir; por dirigir a quebra dos rochedos, mereceu a homenagem do povo de Tabuaço, que mandou inscrever no local o seu nome.
Agora é só chegar à vila que se anuncia acolhedora, entre uma franja de arboredo e verdura, subindo até à avenida António Augusto Silva Barradas.