Segunda-feira, 26 Setembro 2022
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Entre Castros e Igrejas Românicas

ENTRE CASTROS E IGREJAS ROMÂNICAS

Esta será uma inesquecível viagem. O caminho atravessa território de castros antigos e os senhorios de igrejas românicas, que marcaram definitivamente a cultura da gente destes lugares. A montanha e o vale, o Douro e a Beira, o velho e o novo entrelaçam-se admiravelmente neste território.
Partimos para a viagem da Av. Marechal Carmona, junto ao chafariz. A estrada constitui-se por um tempo, como natural divisória entre o poderoso maciço granítico do Pedregal, à esquerda, abas da Serra de Chavães onde a Beira Alta acaba e começa o manso território do xisto que desce e se alonga sobre a direita com todas as marcas da plenitude do Douro.

 

 

 

BARCOS

Ao km 1,6 fica a capela dedicada a S. Torcato e S. Plácido. O sítio é um soberbo miradouro. A linha do horizonte alonga-se e adivinha-se o Rio Douro ao fundo de um grande vale. Ao longo da estrada correm muros de xisto miúdo. Aparece um nicho invocando o Senhor da Boa Viagem quase à entrada de Barcos, ao chegar ao km 3.
Quem vier de Tabuaço, entra na Rua Magalhães Coutinho e depara-se com o antigo solar dessa família. A partir daqui segue a Rua do P. Ismael Vilela, onde se pode ver, à esquerda, o importante edifício da Colegiada (séc. XVII-XVIII). Ambos os edifícios estão em estado de fraca conservação, aguardando reparação e uso condigno.
No Adro dito Largo da Colegiada, levanta-se o Cruzeiro dos Centenários. A Igreja Matriz românica é um monumento a visitar. No interior, são dignos de nota o belíssimo altar de talha dourada dos finais do séc. XVII, o tecto em caixotões e a imagem de Nª Sª da Assunção, a padroeira. Na sacristia, há mais caixotões no tecto, para além das alfaias e preciosidades artísticas, como as pinturas setecentistas dos nichos da Vila Sacra.
Na face poente do Adro, ergue-se ainda uma imponente construção originalmente destinada a servir de Paços do Concelho. Daqui descemos, para poente, seguindo a direcção da antiga Estrada de Santiago: a actual Rua Francisco Pereira Cabral, ladeada de casario, onde se destaca a residência fidalga que foi dos Cunhas.
Voltando ao Largo da Colegiada siga-se a Rua da Câmara, fronteira à Igreja, para ver o edifício da velha Casa da Câmara. Corta-se a Rua do Forno, outra memória do viver comunal, e é logo a Rua do Pelourinho que desce para sul, levando mais longe até ao Cabeço da Forca.
Encostadas à Rua do Pelourinho, ficam a Casa da Roda dos Expostos, a construção sólida e elegante da residência anexa, talvez do século XVII, e, mais abaixo, o fontenário.
Sobe-se a Rua Padre Ismael Vilela, a Rua Magalhães Coutinho e contorna-se, pela direita, o casario de Barcos, seguindo um velho caminho de Via Sacra; a anunciá-lo vemos uns nichos que, na Quaresma, recebiam um painel pintado e os cruzeiros que chegam ao Calvário, marcado pela fortíssima presença de três cruzes fronteiras à Capela de Santa Bárbara; no seu púlpito exterior tinha lugar o dramático Sermão do Enterro do Senhor, em Sexta Feira Santa.
A viagem prossegue rumo ao Sabroso.

 

 

SABROSO

A Cruz do Sardão, ao km 4,5, é um cruzeirinho modesto elevado de um outeiro, que não devemos perder. A estrada de terra batida segue, desolada, entre mato e pinhal. Mas logo se avista, sobre a direita, o Monte Sabroso que, por todos os lados, se defende com os pedregulhos das encostas. Aqui se desenvolveu, na longínqua Idade do Ferro, um castro que veio a aproveitar os terrenos chãos para crescer.
S. Pedro é ali venerado numa capela que fica mais no alto do Monte Sabroso. Mas a Capela de Santa Maria do Sabroso é um marco da religiosidade da região, destino de romeiros e palco de festas dedicadas à santa padroeira. Do importante cemitério envolvente restam hoje algumas tampas de sepulturas encostadas aos muros do pequeno santuário. As cruzes e as espadas esculpidas em algumas lajes revelam o estatuto daqueles a quem pertenceram.
Deixa-se agora este lugar poético, silencioso, de impressionantes memórias e sobe-se até à estrada que vem de Barcos para Pinheiros.

 

 

PINHEIROS

Ao km 7, a paisagem é um caos de blocos de granito cuja dureza apenas se atenua com a mancha verde-negra do pinheiral. À direita, ao fundo da encosta declivosa, corre o Rio Tedo. Ameniza-se, no entanto, a paisagem à entrada de Pinheiros, cujo casario mais antigo se abriga num resguardo de montanha, voltado a sul.
A Praça Ageu Fonseca Moreira, que um esguio cruzeiro pontua ao centro, parece sempre disponível para as grandes festas do povo. Mais adiante fica a igreja cujo adro se rodeia de sólidas construções de cantaria com datas inscritas em cartelas e pitorescos recantos como há na Rua do Cabecinho. É o km 8,5.
A Igreja Matriz, de 1719, é de boa cantaria. Apresenta um belo exemplar de talha dourada barroca dos princípios do séc. XVIII. O altar-mor guarda uma bonita imagem de Nª. Srª. com o Menino. O tecto da capela-mor apresenta uma armação de 20 caixotões pintados com figuras de santos.
Há ainda uma Capela de Santa Bárbara. O visitante mais indagador pode ir visitar, subindo a pé, o Cabeço das Pombas, logo ao lado do povoado. Aqui encontramos, inscritas nas rochas, enigmáticas figurações de sóis radiados e de outros motivos, de autor e significado desconhecidos, mas, ainda assim, interessantes.
Seguimos, deixando à direita na curva do caminho a aldeia tranquila.

 

 

CARRAZEDO

A estrada desce até perto do km 11, onde está a pequenina Capela do Nosso Senhor do Calvário e um nicho com um Sr. dos Aflitos, pintado numa cruz de madeira. Vale a pena visitar a Igreja Matriz, com o seu retábulo de talha de estilo nacional, dos finais do séc. XVII, onde figura a imagem do Salvador do Mundo, seu patrono. O tecto apainelado mostra 30 caixotões pintados com figuras de santos de ingénuo fabrico e 6 com motivos florais. Sobre o lado direito da nave abre-se a graciosa Capela de Nª. Senhora do Rosário.
Do adro da Igreja, donde vemos a face alterada de um edifício seiscentista, descobre-se para Nascente, no sítio da Torrinha, a Capela da Nossa Senhora da Conceição. Entre a Igreja e a Capela descobrem-se ainda várias cruzes de uma Via Sacra levantada à volta de 1700.
Um pouco à frente, ao Km 12, seguimos, à direita, a estrada que desce fortemente durante 2,5 Km até Granja do Tedo.

 

 

GRANJA DO TEDO

Granja do Tedo é constituída por dois povos: o Povo de Baixo, mais antigo, e o Povo de Cima. Uma velha ponte de teor romântico, do séc. XVII talvez, une os dois povos. Sobre as águas do Rio Tedinho, mais acima do vale existe uma ponte medieval.
O Povo de Baixo oferece, a quem olha de alto, durante as horas de sol, uma deslumbrante lição de organização urbana habilmente desenvolvida à volta da Igreja matriz, entre o rio e a montanha. O Solar dos Lucenas e Mergulhões, na Rua Abel Barradas, e outras casas de prestígio fixaram ao longo dos sécs. XVII e XVIII o alinhamento dos arruamentos.
A Igreja Matriz, datada de 1623, tem uma riquíssima talha joanina no altar-mor, onde figuram imagens dos santos padroeiros Faustino e Jovita. É de notar ainda a beleza dos motivos florais que decoram os caixotões do tecto e o Altar das Almas, à esquerda da nave. Do outro lado, fica o altar da Senhora das Neves.
No Povo de Cima, no Largo da Praça, em frente do Pelourinho ergue-se a arruinada Capela de S. Francisco das Chagas (1655) e, não muito longe, a Capela de Nossa Senhora do Socorro, mandada edificar em 1615, pelo Padre José Francisco.
Pode ver-se ainda, no Povo de Cima, um belíssimo solar setecentista onde são perceptíveis dois corpos diferentes separados pela Capela de Nossa Senhora das Mercês.
Vale a pena deambular pelas ruas desta povoação onde cachos de flores caem de muros e onde pode bater-se à porta de um cesteiro de verga, trabalhando em seu ofício.
Da Granja do Tedo, há que subir outra vez a Carrazedo e aí cortar à direita para Longa (km 17), deixando mais adiante a estrada que sobe a Vale de Figueira.

 

 

LONGA

Esta estrada que sobe e desce na meia encosta declivosa caracteriza-se pela beleza das flores agrestes. O Monte Redoiro aparece em breve, altíssimo, íngreme, povoado de pinhal e castinçais. Ao km 22 avista-se a povoação de Longa que dá gosto ver exposta ao sol.
O acesso é difícil - é mais fácil subindo primeiro a Chavães; mas o viajante, mesmo que não seja arqueólogo, há-de impressionar-se com a grandeza do espaço remotamente habitado e com a sua segurança, apesar de ficar tão alto.
Longa foi vila. Teve pelourinho, mas foi destruído há poucos anos. E vêem-se ainda casas com ar fidalgo.
É gente cristã. Há para ver a Igreja Matriz e a Capela de S. Miguel no fundo do povo, a Capela da Senhora da Saúde no alto, a Capela da Senhora da Guia, a Capela de Santo António, ao pé do Cemitério, a Capela de S. Sebastião, entre a anterior e a Senhora da Saúde, e a Capela de Santo Isidro, na encosta distanciada do Muro.
De Longa toma-se o rumo do Sul. A estrada desce um pouco, mas depois o terreno aplana-se. Ao km 25 inflecte-se à esquerda, subindo para Arcos, na direcção do Nascente.

 

 

ARCOS

À beira do povoado há soutos abundantes e hortas envolvendo o casario estendido em terreno plano da Beira.
Se ali se for no Outono, há uma luz mística ao fim da tarde e podem ver-se mulheres carregando lenhas, fumos saindo de telhados, carros de bois carregados com sacos de castanhas e de nozes a caminho da aldeia.
Pára-se no Largo da Nogueira, onde o Pelourinho, simples, evoca os velhos foros de vila. Poderá ir visitar-se a vizinha Capela de Stº. António, à beira do caminho, com retábulo pobre e, no chão, uma laje de sepultura com enigmáticas inscrições.
Perto podem ver-se inseridas em desadequadas habitações duas artísticas janelas do séc. XVI que decerto sobraram de um velho paço de talhe manuelino.
A sul, na colina ao lado da estrada que vai para Cabaços, há um grande Nicho de Nosso Senhor dos Aflitos. No caminho da Igreja, aparece um antigo cruzeiro e o lugar do Castelo, de que não sobra outra memória para além do topónimo.
A Igreja Matriz, dedicada a S. Silvestre, ao deslado do povo, merece ser visitada. Nela destacam-se os altares da Nossa Senhora da Conceição e de Nossa Senhora de Fátima, o riquíssimo Altar das Almas e uma bela estátua de S. Miguel.
Saímos agora de Arcos indo na direcção do Nascente. A estrada é larga, o terreno plano e um tanto vazio apesar das sementeiras de pão, do plantio de castanheiros e do matagal, mais no alto, ao virar para Santa Luzia e Sendim, na Serra. Chavães encontra-se um pouco adiante, quando se desce, ao km 32.